quinta-feira, 10 de abril de 2014

A entrada da favela

     No momento que o dinheiro chegou em suas mãos, ele correu em direção à sua casa, na favela, exaltado. A imagem de sua família com roupas novas, refeições quentes e, quem sabe, com educação não pública, coloca um sorriso largo em seu rosto, quente.
      Com esse dinheiro, ele talvez colocaria a sim mesmo em uma classe social alta o bastante para um emprego fixo. Talvez tivesse o suficiente para ensinar sua filha a ler ou, quem sabe, colocar seu filho em uma escola boa onde os professores especializados poderão aperfeiçoar sua habilidade matemática. Ele poderia, pela primeira vez, comemorar o aniversário de sua esposa de forma luxuosa, pelo menos em relação à vida que ele tinham.
    Eles, com a quantia ganhada na melhor aposta feita, poderiam sair da favela que moravam desde dias incontáveis. Poderia, finalmente, parar de provar "lealdade" à gangue. Sem mais furtos, sem mais assaltos. Eles morariam longe desse lugar.
     A entrada "formal" da favela ficava no pé da montanha. Percorrendo seu caminho, parou por um momento e observou pela última vez aquela entrada. Ele sabia que não ia vê-la nunca mais.
      Ele foi andando pela rua em direção à sua casa, o dinheiro no bolso esquerdo. Subindo a elevação que chega em sua "casa", se é que aquilo pode ser chamado assim, um barulho alto o distraiu por um milésimo de segundo. Ele caiu bem em cima da elevação.
     Antes de morrer, ele viu um homem pegando o dinheiro. Ele viveu o suficiente para ouvir os gritos finos e desesperados de sua filha.
      Ele estava certo. Nunca mais precisou ver a entrada da favela.

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