quinta-feira, 2 de julho de 2015

Pai, me deixa no céu?

   Alguém pode me explicar porque eu estou sendo agora tratada como a filha problemática? Eu, a filha que não bebe nem fuma, sempre avisa onde está, sempre avisa o que houve, por mais terrível que seja (pelo menos na visão dos pais, que pelo que parecem acham que um amigo ficar bêbado é algo terrível), que não falta aula na faculdade, que passou em todas as cadeiras e que conquistou a confiança deles por todos esses 18 anos. Há um mês que meu pai reclama de qualquer decisão que faço, ou me responde de forma ríspida ou simplesmente não me responde de forma alguma, além de me tratar com se eu tivesse feito algo errado e por mais que eu pergunte a mim mesma ou até a minha mãe o que eu fiz, ao que parece eu não fiz nada. Admito, um dia, semanas atrás, não pude dormir na casa de um amigo (homossexual) e fiquei chateada por essa resposta. Protestei com simplesmente não puxar conversa por meio sábado e ganhei um mês de ignorâncias.
       Hoje, após encontrar uma amiga que não vejo há tempos, achei que não haveria problema algum em chamá-la para minha casa, algo que sempre fiz, que meu irmão sempre fez e que nunca recebi nenhuma, repito, NENHUMA resposta negativa por parte de meus pais. Então, depois de comunicár esse planejamento, algo que nem sempre faço, ao que nunca recebi nenhuma resposta negativa também, recebo uma ligação de meu pai, que por acaso tinha esperanças que tivesse começando a "me perdoar" recebendo as mesmas grosserias de antes. Sua justificativa era que parentes iam chegar no outro dia, mas eu conheço meu pai. Conheço-o com todas as forças e sei que a sua reclamação era sobre eu somente ter "avisado" o acontecimento. Não adianta a negação, eu conheço meu pai. Desmarquei meu compromisso.
     A bela recepção é ainda somada quando peço então para me buscarem. Sou ignorada por meu pai , pelo que parece. Ao chegar em casa, minha mãe tenta melhorar a situação, mas a coisa que mais quero no momento é ser ignorada, e sem me sentir tão culpada com isso quanto sei que meu pai não se sente.
      Tenho 18 anos, e acho que a maior loucura que fiz foi "invadir" uma festa que não podia maior de idade, mas tenho sido tratada, não direto, claro, mas de vez ou outra como um "fardo", por falta de palavra melhor. Um fardo para ser buscada na faculdade, um fardo que pede carona demais, um fardo que quer dormir na casa de alguém, um fardo que quer trazer pessoas para casa, E um fardo ignorado, o que para mim talvez seja uma das piores definições.
     A confiança que conquistei por todos esses anos não está sendo o bastante para eu fazer coisas que vejo todas as minhas outras amigas e pessoas não amigas fazendo. CLARO que não estou dizendo que sou uma pessoa presa, claro que não. Sempre tive grande liberdade para fazer muitas coisas e para trazer amigas direto para minha casa, mas... Sinto como se essa liberdade fosse diminuindo a medida que etou amadurecendo. Ou até melhor... A medida que meus pais, que meu pai, forem percebendo que eu estou amadurecendo. Que não estou indo para voltar antes das dez, que não estou indo para a casa de uma amiga menina cujo a família conhece a minha, até às vezes por culpa deles, e que não estou indo pensando no que meus pais faziam no tempo deles. Eu estou indo para ser livre, livre na medida da educação que eles me deram e da confiança que me foi dada. E eles parecem não acreditar nisso. Eu sei que não sou a filha problemática, mas nesses últimos dias é assim que tenho me sentido.
      Eu não estou indo para ser ignorada pelo meu pai, eu estou indo para me esquecer disso. E é claro que não preciso de bebida para isso, eu só preciso do meu tempo.
      Não estou dizendo que meus pais são horríveis, que a vida é injusta e que eu sou infeliz. Isso não é um desabafo sobre como eu odeio a minha vida, pelo contrário. Há momentos que não posso me sentir mais feliz. Mas nos últimos dias, tenho percebido, bem como minha mãe, que tem algo me incomodando. Isso é uma carta de como estou me sentindo agora: ignorada. Sei que já repeti milhares de vezes essa palavra, mas ser ignorada é indiferença, e indiferença não é amor. Eu não sou orgulhosa, mas eu não quero ser a que engole dessa vez, porque já engoli milhares de vezes e não acho isso correto, como pessoa e como filha.
       Pai, mãe, se algum dia lerem isso, desculpa, mas entendam o meu lado. Eu sou um passarinho. A metáfora é clichê, mas funciona. Não estou pedindo para sair do ninho, não estou pedindo para me deixarem voar para longe, principalmente por que já voei diversas vezes pela cidade com seu consentimento e não estou pedindo para me deixarem fazer um voo inseguro. Só estou pedindo para me deixarem voar mais alto. Já estou grande e minhas penas estão firmes, eu não vou desabar em cima de vocês. Mas como vou provar isso se vocês não me dão oportunidades? E, admito, pretendo cair, mas não de tão alto, vocês sabem disso.
     Faço jornalismo, sou uma estudante de comunicação. Na minha concepção, a maioria disso é uma falta de comunicação, já que há muito que quero dizer, mas não tenho sido permitida ou não estou me sentindo à vontade. Não estou falando de grosserias e ignorâncias. Esse texto diz como me sinto agora, não estou planejando ofender ninguém, criar polêmica, fazer drama, muito menos piorar minha situação. Estou querendo comunicar como me sinto, e não posso ser punida por isso. Se eu não puder me comunicar com vocês, se eu não puder dizer como me sinto, como podemos nos relacionar?
       E calma, não quero voar para tão longe. Eu ainda não sei fazer isso e não pretendo tão cedo. Mas são nas brisas lá do alto que eu alcanço o sol!